segunda-feira, dezembro 17, 2007

Ler folhas de chá
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Entre as várias resoluções de ano novo que finjo adoptar, uma que abandono ano após ano é a de não me armar em esperto (a outra é vestir-me melhor, mas esta mais tarde ou mais cedo vou ter de adoptar). Claro que, por uma questão de decoro, convém tentar expurgar-me de todos os vícios antes do fim de mais um ciclo solar, e é por isso que acho importante dizer aqui , e desde já, que me considero capaz de dizer - por mero recurso à imprensa internacional, e sem atender a rankings ou análises sobre prémios - quais vão ser os candidatos ao Óscar de melhor filme este ano. E, como bónus, ainda me justifico perante vós.
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Apenas vos peço que me concedam a graça de não pensar que as minhas escolhas resultam de um critério pessoal. Aliás, e à cautela, digo-vos desde já que não vi nenhum dos filmes sobre os quais vos vou falar - o que é sempre um exercício giro, e um bom treino à capacidade de sair de apertos graciosamente.
Indo directo ao assunto, há 3 filmes que DE CERTEZA vão ser nomeados para o Óscar de melhor filme:
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- American Gangster: é um filme feito para, pensando em, obcecado com, planeado tendo em vista, com o único objectivo de, vendido para ganhar Óscares. É descarado nos seus propósitos, e tem personagens reais larger than life, Russel Crowe como personagem secundária, um realizador que já devia ter ganho uma estatueta e uma variante do tradicional épico criminoso (essa curiosa contribuição americana para a Arte mundial). A malta que vive em Beverly Hills respeita estes esforços, mesmo que depois não os deixem ganhar por não serem bons o suficiente. Mas lá que vai ser nomeado, lá isso vai.
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- Atonement: baseado no vencedor homónimo do prémio Booker, temos uma história que junta: reconstituição de época(s) - dos anos 20 do século passado até hoje; adaptação de grande literatura; estrutura épica; actores ingleses; amores trágicos; valores de produção; o e, ao que consta, um traveling contínuo de cinco minutos sobre a retirada de Dunkirk que faz inveja a Saving Private Ryan. E ainda por cima parece que é um bom filme. Um muito provável vencedor, especialmente se a Academia se encolher perante a violência de
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- No Country for Old Men, ao que consta o grande filme do ano. Adaptação dos irmãos Cohen (génios ainda sem recompensa) de um romance de Cormac McCarthy (génio que começa a ser recompensado). Com toda a parcialidade, espero ver este filme muito, muito, proximamente: os irmãos Cohen são dos mais originais e geniais autores de cinema da História (Fargo, The Big Lebowsky, Arizona Junior, etc.); Cormac McCarthy é uma descoberta minha recente, mas se "No country for old men" estiver sequer perto do nível do livro que agora estou a ler, o inacreditável "The Road" - o melhor livro que li nos últimos dois anos (e ainda nem o acabei), e a milhas o mais violento e emocionalmente cru em que já peguei desde que larguei a versão com desenhos do Antigo Testamento que lia em pequeno - este filme TEM de ser glorioso. A isto junte-se Javier Bardem a interpretar uma personagem que deverá ir directa para o Top 10 (se não 5) dos maiores bandidos... não; vilões... também não chega; patifes... não descreve bem; pronto, Top 10 (se não 5) de pessoas mesmo muito muito muito más a alguma vez terem sido representadas num ecrã, e temos um clássico. O problema é o mesmo que impediu durante muito tempo Cormac McCarthy e os irmãos Cohen de serem reconhecidos: a violência e um pessimismo ontológico (embora "The Road" tenha ganho o Pulitzer, e Fargo também tenha ganho qualquer coisinha). Salvo em cenários de guerra, não estou a ver a Academia a premiar um filme cuja imagem de marca é a de um psicopata com o corte de cabelo mais estranho de sempre a matar pessoas com um cattlegun. Mas sendo regularmente reconhecido como o melhor do ano, talvez a distinção venha a ser inevitável.
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A seguir a estes 3, vem um provável nomeado, muito embora ainda não tenha estreado em lado nenhum:
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- There will be blood é "O Aviador" deste ano, mas com quatro vezes a adrenalina e dez vezes a coragem - ou a inconsciência. Baseado num livro sobre a prospecção de petróleo na Califórnia no início do século XX , pode vir a ser o épico sobre a América que "American Gangster" queria ser. Com Daniel Day-Lewis no papel principal (e todos sabemos o que isso quer dizer; afinal, Di Caprio é muito bom actor, e foi o que se viu quando contracenou com Day-Lewis nos "Gangs de Nova Iorque"), e realizado por P.T. Anderson (de Boogie Nights, Magnolia e Punch Drunk Love, ou seja, um géniozinho formal), tanto pode vir a ser considerado o filme da década, tão influente como os clássicos de D.W. Griffith e John Ford, ou estar esquecido para todo o sempre no fim de Janeiro.
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Por fim, e para preencher quotas, prevejo que venha a ser nomeado para melhor filme ou Michael Clayton, o filme sobre a falta de ética empresarial em que Clooney resolveu participar este ano (quota filme-com-mensagem-política/actual-do-ano); Sweeney Todd, o musical macabro de Tim Burton e Johnny Depp ou "Before the Devil knows you are dead", a comédia negra sobre burros que normalmente seria feita pelos irmãos Cohen (quota musical/comédia negra do ano); e The Savages , o filme independente em que Laura Linney e Phillip Seymour Hoffman resolveram participar este ano (quota filme indie).
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A ausência de um único feel good nesta lista inclina-me para que sejam nomeados ou Michel Clayton ou o Sweeney Todd; ou os dois, se There will be blood falhar no início do ano que vem.
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E, afinal o objectivo deste post, ver se daqui a dois meses ainda aqui está quem? O esperto que assim falou.

1 comentário:

Oh não, é o Freire! disse...

Adivinha quem voltou, meu caro. Não sabia da existência deste teu blogue, um gajo julga que conhece os outros e vai-se a ver aparecem nas notícias por serem cabecilhas duma rede de pornografia de chihuahuas, ou descobre-se que andam nessa vida dos blogues. Dos filmes que citas, apenas vi o American Gangster. Muito bom, e a ideia de ter as moças nuas na fábrica de heroína para não gamarem, tem muito mérito. É uma ideia boa para a próxima edição do Compromisso Portugal. Anda aí um filme brasuca muito porreiro, chamado "Tropa de Elite" (excertos no youtube) sobre a vida dum polícia da PM do Rio de Janeiro, com tiros e porrada a rodos, se bem que me parece que persegue demasiado a sombra do Cidade de Deus e algumas personagens podiam ter mais profundidade. Ainda assim, vale a pena ver. Um abraço!